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Os traumas da inflação

O Brasil, por décadas, conviveu com a chaga da hiperinflação de preços. Durante todo os anos 80 e quase metade da década de 90 o país esteve em frangalhos. Sem moeda e com forte concentração de renda vivemos um dos períodos mais tristes em termos econômicos e sociais de nossa história. Tempos em que perdemos nossa dignidade e a capacidade de entregar um país minimamente sustentável e agradável para se viver.

E, então, tivemos o Plano Real. Praticamente um milagre monetário, o Real se apresentava após outros cinco planos econômicos absolutamente fracassados. Em comum a todos: o controle de preços, o descompromisso com a responsabilidade fiscal e, por fim, um completo desapreço com as regras mais básicas do livre mercado.

Só podia dar muito errado (e deu). No entanto, o milagre monetário que o Plano Real obteve não adveio do absoluto nada, mas sim da observância de leis econômicas básicas e que até hoje alguns países da América Latina ignoram em troca do populismo monetário e fiscal de suas políticas de governo e de seus governantes.

O tema surge (e preocupa) porque de um ano para cá estamos perigosamente flertando com o descontrole da inflação de preços. O IGPM, indicador importante dos preços da produção, já ultrapassou a marca de 37%, no acumulado de 12 meses. Geralmente, quando esse índice dispara, é questão de tempo para o indicador dos preços ao consumidor amplo disparar também (o que não deveria ser novidade para ninguém). Não à toa, nos últimos 12 meses, o IPCA já está acima de 8% passando do limite da meta estipulada pelo Banco Central.

Mas o que explica essa disparada atual? Bem, a pandemia obviamente impactou diversas cadeias setoriais e isso gera ruído nos preços da estrutura produtiva (o que é normal e até producente, ainda que doloroso aos nossos bolsos). No entanto, há outro movimento governamental perigoso e que também pressiona os preços para cima nas economias de mercado como um todo: o descontrole fiscal e monetário do governo federal.

Desde que desligamos boa parte da nossa economia – com as questionáveis medidas de fechamentos de atividades setoriais -, e delegamos ao governo a condução da economia do país que a emissão de moeda e o endividamento se acentuaram. Em síntese, se por um lado mantivemos o consumo artificialmente em alta, por outro, aumentamos a oferta monetária para evitar uma falência generalizada do setor produtivo que, lembremos, foi impedido de trabalhar e produzir. Consequentemente, combinamos uma oferta escassa com um consumo estável ou, por vezes, em alta.

Não é preciso ser nenhum gênio em economia para saber que isso gerará inflação de preços oriunda de endividamento (que teremos que pagar) e de emissão de moeda (que já estamos pagando com a inflação em alta). Um cenário, no mínimo, preocupante.  

É por isso que, em minha atuação parlamentar, prezo tanto pela responsabilidade fiscal e cobro tanto que os governos ajustem as suas despesas. Nada de sustentável virá de um Estado ou de uma nação que se endivida no presente achando que o longo prazo nunca chegará. Ele chega. E quando aparece apresenta a face dura do endividamento dessa e das próximas gerações: a inflação de preços. Uma chaga construída por muitas mãos e manchada de populismo com o dinheiro do pagador de impostos.

Não é apenas sobre liberdade que estamos lidando, mas também sobre o futuro da nossa gente. Que nunca nos esqueçamos que ignorar a realidade jamais nos livrará das consequências de tamanho descaso. Eis o alerta de Ayn Rand que, infelizmente, segue vivo e campeando solto pelo Brasil e toda a América Latina.

Texto originalmente publicado em https://claudemirpereira.com.br/2021/06/os-traumas-da-inflacao-por-giuseppe-riesgo

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